‘Estágio’ intercultural do Bola Colorida, em Santa Cruz, para pensar no ambiente e nas desigualdades

Entre 02 e 06 de Setembro realizou-se o ‘Estágio’ de ‘pré-época’ do Bola Colorida. Foram cinco dias de encontros, criação de laços, desenvolvimento interior e em conjunto com xs outrxs. Ficámos mais completxs, íntegrxs, mais fortes. Mas também mais felizes!

Chegámos numa segunda feira a Santa Cruz, mesmo à hora do almoço. 22 pessoas, com o transporte cedido pela Junta de Freguesia de Alcântara. Conhecemos o lugar que iríamos habitar, cedido pela Câmara Municipal de Torres Vedras. Depois de do almoço (toda a alimentação do estágio foi oferecida pelo Pingo Doce), reunimo-nos numa grande roda e, para encetar as relações fizemos as apresentações. Estavam presentes pessoas de origens muito diferentes: dos bairros Horta Nova, Quinta do Cabrinha e Padre Cruz; da Guiné-Bissau, da Guiné-Conacri, do Gana, da Gâmbia e do Congo. Depois, criaram-se grupos de trabalho, montaram-se as tendas e ala para a praia, que a brisa fresca do mar chamava e a areia estava mesmo a pedir uns chutozinhos na bola. De resto, o futebol de rua na praia foi a atividade que serviu para terminar as tardes.

Futrua na praia

As manhãs começaram sempre de uma forma muito especial: com a prática de yoga. Não diremos que a atividade foi facilmente aceite pelxs jovens. Muitos nunca a haviam experimentado, e havia algum receio no ar. É normal, quando não se conhece, a primeira reação é desconfiar. Mas apenas com um pequeno esforço, os preconceitos esfumaram-se e o grupo entrou no modo Zen. Em cada dia uma nova vitória.

O Yoga Matinal

As tardes foram ocupadas com ações diretas locais: – limpar os lixos das arribas de Santa Cruz, aumentando a consciência dos nossos jovens sobre os valores ambientais e sensibilizando as pessoas à volta, sobre a urgência de retirar os plásticos dos nossos oceanos e usar o lixo para fazer novos objetos, cujos registos fotográficos foram partilhados nas redes sociais, sempre com uma mensagem ambiental adjacente. 

Jovens recolheram lixo nas arribas da praia de Santa Cruz

As noites serviram para debater ideias sobre temas fraturantes. Foram definidos por todxs dois temas, o da sustentabilidade ambiental e o da igualdade/desigualdade. À volta da fogueira conversamos sobre a importância de nos tornarmos mais conscientes sobre os valores ambientais e de mudar mentalidades para que haja menos consumo de plástico e de outros materiais descartáveis. Percebemos que é pela sensibilização e pela educação que iremos perpetuar e ampliar o movimento pela defesa do ambiente. Mas foi o segundo tema que puxou pelos corações de todxs. O debate sobre as questões da igualdade foi muito intenso! Abrimos a conversa partilhando histórias de discriminação que cada pessoa presente já havia experienciado ou assistido. As histórias eram muitas e nada agradáveis. Mas é preciso ter consciência acerca das formas de discriminação que existem na nossa sociedade quando se quer travá-las.

Debates noturnos no calor da fogueira

A segunda parte da conversa foi sobre como podemos evitar que este tipo de situações continuem a acontecer. Falamos sobre a importância da educação e da criação de uma maior consciência coletiva sobre os valores da inclusão e da equidade; lembramo-nos de alguns dos movimentos anti-racistas que se têm desenvolvido pelo mundo fora, como é o caso dos EUA, do Brasil e até de Portugal. Comprometemo-nos a não aceitar tratamentos de discriminação, mas a recusá-los sempre de forma pacífica e construtiva. Enfim, compreendemos a enorme urgência de combater o racismo, mas também nos apercebemos que é uma luta ainda longa pois, infelizmente, há muitas comunidades minoritárias residentes em Portugal, que continuam a sofrer de exclusão severa e de falta de oportunidades, apenas pela classe social a que pertencem, o lugar onde vivem ou a cor da pele que têm.

Sem saber, ficamos acampados mesmo ao lado da Sociedade de História Natural, instalada num grande edifício camarário, e onde está a ser construído um novo museu de Paleontologia, isto é, um museu de dinossauros. Conhecemos um dos responsáveis pelo museu, o Remmert, que veio da Holanda expressamente para descobrir e montar dinossauros, e que nos convidou para uma visita guiada ao espaço. A visita, realizada na terceira tarde do estágio, foi muito interessante, o Remmert explicou-nos que a zona de Santa Cruz é riquíssima em fósseis de dinossauros e que o museu tem peças antiquíssimas (360 milhões de anos!) e por isso raríssimas. Toda a gente teve a oportunidade de não só ver, como também tocar como ainda trabalhar nos fósseis!

Os cinco dias acabaram com aquela que pode ser considerada a primeira rave intercultural do planeta. O futuro esteve ali! Grelhados halal, veganos e de todos os géneros, músicas e danças do mundo, partilha de histórias e de emoções e, para terminar, marshmallows tostados na fogueira…

Sexta-feira foi dia de arrumar tudo e partir. Desmontaram-se as tendas, enrolaram-se os colchões, fizeram-se as malas. Últimos toques na Bola Colorida. Quem é que se consegue agora esquecer destes 5 dias? Impossível não sentir já falta.

Fotos do fotografo Pedro Mesquita, Fotos e mais Fotos

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